Por Detrás do Espetáculo
“Por de trás do espetáculo, atrás cenário, nos porões do grande teatro da vida, retirada a maquiagem , a peruca, a cinta e os sapatos da atriz, vê-se que está velha, cansada. Respira mal. Tem trêmulas as mãos e os cabelos lhe caem , tufos e mais tufos pelo chão. Ela encara o espelho, olha pra dentro de si e enxerga a sua morte.”
O que é um ator ? Pra que serve ?
Que jogo ele joga ?
Qual a sua função ? Será que o ator é um produto? Ele vende ? É vendido? É uma imagem ? É Real ?
Qual o seu poder ? Ele pode algo ? O que ele pode ?
A presente discussão pretende tratar dessas questões, sobre esse jogo (disputado nos subterrâneos da profissão), de suas regras e seu funcionamento.
Como se fabrica um ator (um determinado tipo de ator) ? Ele sai pronto e embalado após um estágio de alguns meses num curso qualquer de teatro ou algo assim , uma indústria que o empacota, o sela sem garantia (e sem opção de devolução), e o faz acreditar estar pronto para algo que nem sabe ao certo o que é. É lançado no campo de batalha e aí começa - ‘Deus nos acuda!’ - a atirar, com suas armas, de improviso e para todos os lados. Ao ser alvejado, o dito ator não pensa duas vezes (porque muitas vezes não lhe foi conferida a possibilidade de pensar), ele se entrega. Sua carcaça é levada e exposta numa vitrine luminosa . Ele se torna um bom bife. Pode ser comprado, preparado, comido e por fim digerido . Podem também vomitá-lo ou antes jogá-lo aos cães . Mas o mais intrigante é que ele não liga ! Ele até gosta, nada lhe dói e, entorpecido ,o ator se deixa abater. Adora a idéia de ter mastigados o seu corpo, sua mente e sua alma.
Qual o preço a ser pago por isso? Na verdade, muitas vezes esse ator escolhe o preço que quer pagar. E, nesse caso, esse preço é o de sua própria aniquilação, sua redução à aquela passividade tão letal que o leva a uma espécie de morte invisível e gradual. Ele vende o seu alento e despreza o que de tão valioso poderia oferecer: seu pensamento e sua real expressão . Não é mais dono de si. E crê ainda ser esse um bom sentido para tudo.
Nesse jogo, onde as regras são as da coisificação, cada vez mais ele se perde. Cada vez mais adentra num mundo onde as aparências imperam. Ele sobrevive acreditando nelas e em seu inegável poder de persuasão. O encantamento perdura. Ele tem o ego inflado e é tomado aos poucos por essa soberba própria daqueles que se embrenham na gana por um poder cada vez maior.
O ator-alpinista vai subindo, usando a cabeça de uns como apoio, cortando a corda de outros , e lançando pedras abaixo, sempre rumo ao topo da montanha (qualquer que seja ela , o importante é chegar ao topo).
Se acaso ele chega, por lá finca a sua bandeira, cerca seu espaço e o defende com unhas e dentes . Por lá permanece até que outro tome o seu lugar lançando-o montanha abaixo.
Eis um quadro poderoso e cruel !
Nos bastidores dessa luta desenfreada por poder e celebridade, encontra-se um Inferno. Uma fogueira de vaidades e almas perdidas, apartadas de toda ou alguma vicissitude humana ou convicções que realmente valham a pena. Mas a pergunta que persiste e que não é tão evidente nem fácil de responder é : Aonde leva ou o que de fato há por trás desse rumo? Qual o atrativo real por de trás dos artifícios?
De alguma maneira o topo dessa imensa escalada desemboca em um planalto arejado e bem regado pelo sol, farto de delícias da tão cobiçada segurança - alçada no prestígio e no renome. A morte a muito se assemelha a essa imensa e passiva segurança (que na realidade não é tão segura assim).
Tennesee Willams, dramaturgo americano, em seu ensaio chamado “A Catástrofe do Sucesso”, diz : “(...) Ninguém escapa assim tão facilmente da sedução de uma maneira de viver sibarítica. Você não pode arbitrariamente dizer a si mesmo, de um momento para outro: agora eu vou continuar a minha vida como ela era antes de essa coisa, o Sucesso, acontecer. Mas logo que você apreender a vacuidade de uma vida sem lutas, você estará equipado com os meios básicos de salvação. Logo que você souber que isto é verdade, que o coração do ser humano, seu corpo e seu cérebro são forjados numa fornalha de brasas vivas especificamente para o propósito do conflito, do choque (a luta criadora), e que, uma vez desaparecendo esse conflito, o homem é uma mera espadinha de criança, boa para cortar margaridas, que não é a privação mas sim o luxo, o lobo mau, e que os dentes agudos do lobo são formados pelas vaidadezinhas e indolências pequeninas que constituem o legado do Sucesso - então, de posse dessa certeza, você está pelo menos apto a saber onde reside o verdadeiro perigo. (...) A segurança é uma espécie de morte, creio, (...) Pergunte a qualquer pessoa que já passou pelo tipo de sucesso de que estou falando. Para que serve ?”.
Bruno Feldman
Desta vez, quem veio contribuir com o Desencaixe foi meu amigo Bruno... Lindo o texto!
Quem quiser saber mais sobre o Bruno pode ler seu perfil
Beijão =*
O que é um ator ? Pra que serve ?
Que jogo ele joga ?
Qual a sua função ? Será que o ator é um produto? Ele vende ? É vendido? É uma imagem ? É Real ?
Qual o seu poder ? Ele pode algo ? O que ele pode ?
A presente discussão pretende tratar dessas questões, sobre esse jogo (disputado nos subterrâneos da profissão), de suas regras e seu funcionamento.
Como se fabrica um ator (um determinado tipo de ator) ? Ele sai pronto e embalado após um estágio de alguns meses num curso qualquer de teatro ou algo assim , uma indústria que o empacota, o sela sem garantia (e sem opção de devolução), e o faz acreditar estar pronto para algo que nem sabe ao certo o que é. É lançado no campo de batalha e aí começa - ‘Deus nos acuda!’ - a atirar, com suas armas, de improviso e para todos os lados. Ao ser alvejado, o dito ator não pensa duas vezes (porque muitas vezes não lhe foi conferida a possibilidade de pensar), ele se entrega. Sua carcaça é levada e exposta numa vitrine luminosa . Ele se torna um bom bife. Pode ser comprado, preparado, comido e por fim digerido . Podem também vomitá-lo ou antes jogá-lo aos cães . Mas o mais intrigante é que ele não liga ! Ele até gosta, nada lhe dói e, entorpecido ,o ator se deixa abater. Adora a idéia de ter mastigados o seu corpo, sua mente e sua alma.
Qual o preço a ser pago por isso? Na verdade, muitas vezes esse ator escolhe o preço que quer pagar. E, nesse caso, esse preço é o de sua própria aniquilação, sua redução à aquela passividade tão letal que o leva a uma espécie de morte invisível e gradual. Ele vende o seu alento e despreza o que de tão valioso poderia oferecer: seu pensamento e sua real expressão . Não é mais dono de si. E crê ainda ser esse um bom sentido para tudo.
Nesse jogo, onde as regras são as da coisificação, cada vez mais ele se perde. Cada vez mais adentra num mundo onde as aparências imperam. Ele sobrevive acreditando nelas e em seu inegável poder de persuasão. O encantamento perdura. Ele tem o ego inflado e é tomado aos poucos por essa soberba própria daqueles que se embrenham na gana por um poder cada vez maior.
O ator-alpinista vai subindo, usando a cabeça de uns como apoio, cortando a corda de outros , e lançando pedras abaixo, sempre rumo ao topo da montanha (qualquer que seja ela , o importante é chegar ao topo).
Se acaso ele chega, por lá finca a sua bandeira, cerca seu espaço e o defende com unhas e dentes . Por lá permanece até que outro tome o seu lugar lançando-o montanha abaixo.
Eis um quadro poderoso e cruel !
Nos bastidores dessa luta desenfreada por poder e celebridade, encontra-se um Inferno. Uma fogueira de vaidades e almas perdidas, apartadas de toda ou alguma vicissitude humana ou convicções que realmente valham a pena. Mas a pergunta que persiste e que não é tão evidente nem fácil de responder é : Aonde leva ou o que de fato há por trás desse rumo? Qual o atrativo real por de trás dos artifícios?
De alguma maneira o topo dessa imensa escalada desemboca em um planalto arejado e bem regado pelo sol, farto de delícias da tão cobiçada segurança - alçada no prestígio e no renome. A morte a muito se assemelha a essa imensa e passiva segurança (que na realidade não é tão segura assim).
Tennesee Willams, dramaturgo americano, em seu ensaio chamado “A Catástrofe do Sucesso”, diz : “(...) Ninguém escapa assim tão facilmente da sedução de uma maneira de viver sibarítica. Você não pode arbitrariamente dizer a si mesmo, de um momento para outro: agora eu vou continuar a minha vida como ela era antes de essa coisa, o Sucesso, acontecer. Mas logo que você apreender a vacuidade de uma vida sem lutas, você estará equipado com os meios básicos de salvação. Logo que você souber que isto é verdade, que o coração do ser humano, seu corpo e seu cérebro são forjados numa fornalha de brasas vivas especificamente para o propósito do conflito, do choque (a luta criadora), e que, uma vez desaparecendo esse conflito, o homem é uma mera espadinha de criança, boa para cortar margaridas, que não é a privação mas sim o luxo, o lobo mau, e que os dentes agudos do lobo são formados pelas vaidadezinhas e indolências pequeninas que constituem o legado do Sucesso - então, de posse dessa certeza, você está pelo menos apto a saber onde reside o verdadeiro perigo. (...) A segurança é uma espécie de morte, creio, (...) Pergunte a qualquer pessoa que já passou pelo tipo de sucesso de que estou falando. Para que serve ?”.
Bruno Feldman
Desta vez, quem veio contribuir com o Desencaixe foi meu amigo Bruno... Lindo o texto!
Quem quiser saber mais sobre o Bruno pode ler seu perfil
Beijão =*
